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domingo, 31 de outubro de 2010

JPP em entrevista ao Jornal "Correio da Manhã"


"Sou de vivos não de estúdio”



João Pedro Pais chegou ao primeiro lugar do top nacional com ‘O Coliseu’, o CD/DVD que é a sua estreia em gravações ao vivo, após 13 anos de carreira

Correio da Manhã – Qual a sensação de chegar ao número 1 do top de vendas nacionais uma semana e meia após o lançamento do disco?

João Pedro Pais – É algo bom, mas, de alguma forma, é também ingrato, pois neste top de vendas entram artistas de outros países e as indústrias americana ou inglesa são muito mais fortes do que a nossa. Quando digo que é ingrato é neste sentido: se eu não entro no mercado inglês, porque é que eles entram no nosso? Acho que devia existir um top estrangeiro e outro nacional. Assim, nós portugueses seríamos mais beneficiados.

- Que diferenças existem entre este álbum gravado ao vivo e os outros de estúdio?

- Ao vivo é o que nós somos. Mesmo que tenhamos alguma falha, ela aparece, enquanto no estúdio é tudo mais limpo, não há aquela cumplicidade com o público. Ao vivo estamos a ser julgados e queremos dar o nosso melhor, apesar de em disco também querermos. Mas aqui nada pode falhar porque não há repetições.

- E qual dos formatos prefere?

- Ao vivo, claro. Eu sou de vivos, não de estúdio. Prefiro a presença do público... Apesar de em estúdio ser muito rápido a gravar. Com o Mário Barreiros, que produziu 'A Palma e a Mão', e mesmo com os outros produtores com quem trabalhei, gravei sempre ao primeiro ou segundo 'take' e ficou logo bom. Mas não é a mesma coisa. Em estúdio fazemos as coisas da melhor forma possível porque as pessoas vão ouvir e são essas músicas que gravamos em disco que depois nos vão levar ao vivo.

– Que critérios utilizou para seleccionar os temas para os concertos e para este disco?

- Escolhemos as músicas mais conhecidas. São aqueles temas inevitáveis, mais óbvios, que ficaram mais populares através da rádio. Não podíamos fugir, armar-nos em artistas, porque nós não somos artistas. Somos pessoas que têm um trabalho e o expõem ao público.

– Que análise faz dos dois concertos que levaram a este álbum?

- Foram muito bons. Ter a participação de Jorge Palma no piano, do Zé Pedro, dos Xutos & Pontapés, nas guitarras... E o público todo connosco... Os coliseus estiveram esgotadíssimos! Foi excelente.

– Depois dos coliseus, qual será o próximo passo?

- O próximo passo será continuar a fazer canções e ir aos concertos para os quais sou contratado. Fechou-se um ciclo um ciclo de 13 anos. Outras coisas virão, que serão boas. Com certeza, sei isso. Sei de onde venho e para onde vou. Mas tenho a noção de de que sou um cantor português e que não posso querer assim muito, porque o meu mercado não me permite. Eu tive a sorte de fazer a tournée ibérica com o Bryan Adams. Fizemos nove espectáculos em dois anos, 2003 e 2005. Toquei com a banda dele no meu disco 'Tudo Bem'. Fui gravar ao seu estúdio, o Warehouse Studio, em Vancouver. Toquei duas vezes no Rock in Rio no palco principal. Eu já sou privilegiado por, em 13 anos, ter feito tudo isto. Fiz parcerias com o José Mário Branco, com o Fausto, com a Mafalda [Veiga], com o [Luís] Represas, com o Jorge Palma... Da primeira vez que subi ao palco no Pavilhão Atlântico ao lado do Bryan Adams pela primeira vez, sem ser em Espanha, tinha 18 mil pessoas à espera, do Bryan claro, mas tive a sorte de ter sido eu a fazer a primeira parte.

– Se não tivesse participado no 'Chuva de Estrelas', acredita que o destino teria sido o mesmo ou o programa foi um ponto de viragem?

- O programa não pode ser levado a sério. Pelo menos por mim nunca foi. Era um programa de entretenimento. Foi o único programa musical em que tudo era uma brincadeira televisionada. Mas naquela altura tive a sorte de ter talvez dois milhões de pessoas, que era o share na altura, a assistirem. Influenciou-me a continuar na música, a escrever novos temas. Falei com o meu actual agente e ele disse-me que tinha que fazer canções porque milhões cantam bem mas milhões não fazem canções nem músicas. E se não se fizer músicas morre-se à nascença.

– Onde se inspira para a criação de temas?

- É nos livros que leio. Eu também sou aquilo que ouço, aquilo que leio dos outros, o que vejo... E aquilo que não presta deito fora. Tem a ver também com o gosto musical, com o que ouço dos outros. Adoro música portuguesa. Acho que houve grandes projectos até hoje e tive oportunidade de conhecer alguns. Gosto de ler. Neste momento vou começar a ler 'O Livro' de José Luís Peixoto. O José Luís inspira-me bastante. Além de sermos amigos, somos admiradores e respeitamo-nos um ao outro. Depois há outros autores portugueses... Tento informar-me ao máximo e sou interessado naquilo que os outros fazem bem e que me agrada a mim.

- Ouvir outros artistas também o influencia. Que nomes o marcaram mais?

- Há tantos. Mas o Fausto é um ser muito especial. Além do Jorge Palma... São as pessoas com quem convivo mais, que falo de quando em vez. São nomes incontornáveis na música. Como o José Mário Branco, que é um poeta, quer pela escola que teve ou pela vida literária. Neste momento, os nomes que citei são os grandes cantautores ainda vivos. Mas há mais, só que eu não me dou com esses, pelo que estou a referenciar apenas aqueles com que me dou neste momento. O Represas também me influenciou bastante através dos Trovante.

– Convidou Massimo Cavalli, Jorge Palma e Zé Pedro para os concertos nos coliseus...

- Porque sou amigo deles. Eu antes de convidar alguém para participar num projecto ou de responder a um convite, tenho que me identificar com essa pessoa na altura. Em primeiro lugar está o homem, a dignidade e a honra. Não está nunca a filhadaputísse. Não passo rasteiras a ninguém. Não faço favores e odeio mesmo fazê-lo. Só me dou com quem me faz sentir bem. Estes músicos são pessoas puras e que não passam rasteiras a ninguém.

– No álbum, antes de cantar 'Ninguém é de Ninguém', diz que este é dos seus temas mais inocentes, que se o tivesse escrito agora teria mais maldade. Em que aspectos?

- O 'Ninguém é de Ninguém' é feito numa altura de imaturidade. É a minha primeira ou segunda música à viola. É natural que há 13 ou 14 anos eu não tivesse a experiência que tenho hoje, não tinha lido os livros nem tinha a malícia que tenho agora. Nós com a idade vamos aprendendo a estar ainda melhor e sabemos quem é que nos quer pregar rasteiras ou não. Este tema é tão puro, tão inocente... Por exemplo, quando gravei o 'Volto Já', tinha mais malícia, na parte em que digo 'Quero os teus dedos molhados, bastante salgados ', eu sei o que quero dizer... Já há mais malícia, no sentido do palavrão.

- Para quando o próximo álbum de originais? Já tem temas preparados?

- Já tenho um álbum feito, com dez canções. Vou trabalhá-las ainda melhor e, depois de os textos estarem prontos, vou dá-los a ler àqueles que trabalham comigo e ao meu caro amigo José Luís Peixoto, esse grande escritor. Mas ainda não há nenhuma data definida. Eu não faço canções para ter espectáculos, por isso é que o meu último álbum teve uma pausa do anterior de quatro anos. Acho que as pessoas têm de fazer canções para se identificarem, têm de contar histórias de vida. As minhas canções são histórias da minha vida e das vossas vidas. Não se pode fazer um álbum só porque se tem de ter espectáculos. Isso é o maior erro.

– O João apresenta uma postura de quase anti-estrela, como se o sucesso não o afectasse...

- Eu antes de cantar era campeão nacional de luta. Fazia parte da Selecção Nacional de Luta Greco-Romana e sei o que é a derrota e o que é a vitória. Ganhei muita vez e perdi algumas. Participei em campeonatos do Mundo e da Europa. No fundo, tem a ver com o respeito. Eu não sou mais nem menos do que alguém. Somos todos iguais, cada um com sua função.

- Praticava luta greco-romana de alta competição e chegou mesmo a obter os mínimos para os Jogos Olímpicos de Barcelona mas não os confirmou.

- Eu fiquei em oitavo lugar do Campeonato do Mundo em seniores. Na altura, quem ia aos Jogos eram quem ficava entre os 10 primeiros. Eu fiquei em oitavo logo após os Jogos Olímpicos de Seul, em 1988, mais concretamente em '89, em Martigny, na Suíça. E, como me classifiquei tão cedo, a FILA (Federação Internacional de Lutas Associadas) não me deu logo ali os mínimos e pediu-me para confirmar. A partir daí desinteressei-me. Nem fui ao Campeonato do Mundo, em Roma.

- Imagina como seria a sua vida se tivesse seguido o rumo desportivo?

Provavelmente não estaríamos aqui a falar hoje. Não penso nisso porque nunca foi meu objectivo ir ao Jogos. Nunca fui obcecado com isso. Se acontecesse acontecia... Mas também não sou obcecado pela música. Não sou escravo da música. Eu adoro andar na música enquanto me sentir bem e o público gostar de me ouvir. No dia em que não gostarem de me ouvir não faz sentido continuar. Não vamos obrigar as pessoas a levar connosco. Faz sentido enquanto houver público. É como vocês, no jornal 'Correio da Manhã', que estarão activos enquanto houver pessoas a lê-lo. Não penso no futuro... Mas agora que já cá estou, é algo intrínseco, já está tão entranhado que é mais difícil dizer adeus. Mas tenho a noção de que um dia vou ter que o fazer, porque o Mundo não gira à minha volta e há outras pessoas a estrearem-se. Um dia terei que partir musicalmente.

- E como é visto o seu sucesso pela sua família?

- Todos estão contentes. As pessoas que estão à minha volta, que gostam de mim e sabem que podem contar comigo, estão contentes. Aliás, quem está à minha volta nem celebra muito a sério. Faz parte do meu estilo de vida. Ficamos contentes mas sempre com um pé atrás porque temos todas as dúvidas do Mundo.

- O seu filho tem agora 11 anos. Pensa que ele algum dia poderá vir a seguir as passadas do pai no mundo da música?

- Não sei. Neste momento, continuo com algumas dúvidas. O tempo o dirá. Acho que ele tem uma boa batida, poderá ser um bom baterista mas tem que estudar muito. Tem que ouvir muita música. Tem que ter o fling, porque para tocar bateria é necessário ter bastante fling e não ser muito malabarista. Isso de ser muito malabarista é um erro. Tem que ter muito cuidado, estudar e simplificar.

- Como vê o actual panorama musical português?

- Actualmente há uma grande divulgação da música portuguesa, as rádios tocam música nacional. Penso que não há motivo de queixa nesse aspecto. É claro que as rádios andam sempre à procura de grandes músicas, boas canções... E isso pode ser um pouco ingrato, porque o que para nós parece uma boa canção para o radialista pode não ser. Depende do gosto e quem tem o poder de decisão são as rádios. Acho que as rádios são a principal causa da grande divulgação que a música portuguesa tem. E ainda bem que é assim. Têm ajudado muito a música nacional.

- Há também muitas bandas nacionais a cantarem em inglês. Sente-se um resistente por cantar na sua língua-mãe ou já ponderou actuar noutro idioma?

- Sempre cantei em português, pois sempre toquei Zeca Afonso, Trovante... De vez em quando brinco com Eric Clapton, Eddie Vedder (Pearl Jam), Leonard Cohen... O meu sotaque talvez não seja tão brilhante.... Penso que tenho é de falar melhor português, isso é que é o mais importante. É a minha língua e nunca a esqueci, nem senti pudor dela. Tenho pena que a minha língua seja limitada e não muito expressiva no Mundo, pouco aceite musicalmente. Gostava que nos aceitassem como nós aceitamos os brasileiros ou os espanhóis. Só isso.

- Já conta 13 anos de carreira. Que evolução nota desde que começou?

- É uma evolução positiva. Sei dizer melhor as palavras, interpreto melhor, mas com mais maldade, com uma forma de viver diferente, que é verdadeira mas mais pensada. O próximo álbum mostra isso, pois traz uma sonoridade irreverente...

– É considerado um dos maiores cantautores da sua geração. Como vê o facto influenciar outros artistas?

- Não acho que influencie outros artistas. Tenho alguns admiradores amigos, como o Zé Pedro ou o Jorge Palma, que gostam da minha música... Mas não sou referência para esses senhores que andam há 30 ou 40 anos na música. Talvez o 'Palco de Feras' que eu fiz para os Xutos... Já ouvi alguns jovens no YouTube. Mas não sei...

- Tem mais um espectáculo agendado para este ano, no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra. Que surpresas tem preparadas para esse concerto?

- Talvez fosse engraçado convidar uma das pessoas que esteve no coliseu e fazer coisas diferentes... Apresentar músicas aproveitando o facto de esta vez não estar a ser filmado para um DVD. As músicas novas que tenho são para o próximo álbum de originais. Mas cantarei algo de um modo novo, algo diferente, no Olga Cadaval. Terei que me sentar com o meu agente e falar das ideias que tenho para esse concerto. Quero fazer uma abordagem diferente de algumas canções. Acho que ficaria bem estar só eu e alguém ao meu lado a tocar o violoncelo. Tenho essa ideia em mente e penso que resultaria bem...

Entrevista e foto retirada de: http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/lazer/musica/sou-de-vivos-nao-de-estudio

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